sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Bloody Mary

Abra os olhos! Ana, você está atrasada, corre!
Moro em um enorme prédio de paredes cinza, na esquina, no centro da cidade obscura, como um cenário de Apocalipse zumbi, de vivos. Desço e esbarro em sombras, em gente que já foi pintada com cor-de-alma.

Chego à repartição municipal, seu piso de granito batido está alagado, aqui entram os que buscam solução no seio da máquina de criação de problemas.
Estou preparada e muito confiante para isso, e para tudo.
Uma moça que não posso definir suas características embaça meus olhos com sua postura ereta e séria, já podemos começar.
“Quais são suas habilidades? Vocês foram indicadas com ótimas referências.”

Não me sinto lisonjeada, nada relacionado com repartições, prédios de esquina no centro e boas indicações me soam lisonjeiro.
Abro minha boca para repetir roboticamente as coisas importantes que sei, como quem foi enxertada com aço e agora é peça de engrenagem que será acoplada a sua nave mãe. Essa sou eu sendo responsável no seu mundo.

Seja normal e pareça preocupada com dinheiro.

Sinto aquele gosto, o de sempre que eu adoro. Não posso mais falar, estou muito ocupada bebendo e afogando no meu próprio sangue, que bem ali na frente de todo esse indevido contexto, jorra da minha boca em torrentes. Isso me excita de tal forma, que desejo beber o sangue do mundo inteiro e depois vomita-lo de volta para adubar a terra, e ver se assim nasce uma planta que lembre que possuímos órgãos frágeis, que mostre que todos nós somos humanos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Hannibal

De todas as causas e efeitos, o que me coloca em risco são os olhos que eu nunca comi, e por falta de uma indecente sabedoria, inventei uma tabela de dilemas que decifram olhos que nunca vi.
Olhos castanhos que eram mel e depois verdes, chegaram ao tom de olhos cor de ana se perde, com pintas em órbitas arrebatadas de uma galáxia profunda e vazia.

Os olhos marrons-claro-rasos adjetivam não só as cores. Raso e vazio.

Sou esfinge devoradora de olhos, satisfeita em comê-los cozidos e bem fechados para que eu não veja o degrade de mentiras rebuscadas em suas cores. 
Os olhos mentem em suas cores, e não só de cores vivem e mentem os olhos, (em todos) o meu reflexo eu vi em uma terra de olho por olho, devora-me ou te devoro, que eu já não enxergo mais. 
  

  


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Rapper de mentira

Ouço palavras, mas só entendo insultos
Defendem só os seus mundos, não buscam o saber oculto
Se tem galera eu curto, se passa a bola eu juro
De coração taciturno, se cai quebrado eu junto

E quem vê já repara, na mina que fala, e toma breja igual cara,  até rebola com as trava
Se sua coragem ameaça, cê tem que ficar em casa, lavando louça na pia enquanto afoga suas magoas.

É que eu não vim agradar, pra quem não quer escutar liga tv no jantar na sua sala de estar que vira super star em dar uma sorte pra azar, a boca vai excretar sem a cabeça pensar.
Por isso eu vou te zoar até a  raiva espumar
E o galo cantar, e a cabeça inchar
Até te abalar e o falo fraquejar
Vou anaconda dançar, minha arte é debochar.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Retalho sólido de cinza líquida.

2007, não aperte assim meu peito, é capaz que se rompa o pericárdio e não me resta, além de fisiológica, nenhuma outra proteção. Não desmembre átrios e ventrículos em mínimas linhas imaginárias de retalhos com seu bisturi de precisão cirúrgica que opera sem anestesia palavras de sentido figurado e sentimentos de dor real por mil e um dias e noites, de centenas e dezenas de milhares de vezes.

Aquele que se propôs a reconstruí-lo não era médico, e não entendia de construção, nem biológica e nem civil, não sentia, mas de forma instintiva e animalesca juntaram-se os corpos, e nem Frankenstein sonharia em tão pouco tempo ser tão remendado quanto eu. E do remando ao fogo sem explicação, me incendiara de todas as formas boas e ruins, até ser cinza o mundo, minha cor preferida e o meu coração.

Aquele que remediou, eu o chamei de água e deixou-se entre nós um fluir límpido daquilo que sacia e abranda mas sempre procura por outras correntezas, e procurou.
Sete anos depois meu coração jamais voltará a ser carne e bombeador de sangue, este é condenado a ser um órgão místico e metamórfico que morre todos os dias por toda a eternidade que lhe é concebida, mas ninguém o vê de perto, ninguém faz ideia do que as ações e reações externas causaram dentro de mim.



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Não existiria cor mais bonita pra colorir o sangue do que o vermelho

Que uma adaga rasgue meu ventre num rabisco, tingindo o branco em vermelho
Que vidros moídos conheçam meu punho esquerdo de encontro a um espelho
Que garras de aço de um feroz animal me abram a garganta em vertical
Que mil agulhas se encontrem com minhas veias que se escondem
Qualquer coisa que me traga dor e satisfação
Em grito
Em corte
Em furo
Em ação
Qualquer coisa que me traga dor e satisfação em dádiva, mas que por favor, me tome mais do que essa raiva!


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Lucia In The Sky With Diamonds

Escrevo em meio pedaço de papel uma história que começa com arrepios e ânsias, que me leva as oito maravilhas do mundo nascidas de sementes regadas por meu suor saliva e lágrimas plantadas em meu ventre, sorrio pra vida, debocho da dor, sou maior que o Everest, me jogo mil e duzentas vezes do Everest. 

Parto para onde todos, os sim ou não chapeleiros, são seriamente malucos. O tempo atemporal derrete fora do quadro de Dali pintado dentro de mim, quero me libertar da construção, da rua, do chão, oscilo entre horas e segundos onde conseguir ou não se somam no mesmo produto da equação da minha alma que tem forma de água viva.

As informações se acumulam em minha mente pairando sobre o segundo eu onde o fio de ouro da vida é bifurcado pelas Parcas diretamente do fundo da caverna de escuridão de todas as cores e texturas.

Evito o sol como quem evita as serpentes de Medusa, me suicido com Marilyn Moroe, durmo o sono dos justos, acordo em um mundo monocromático, monótono, monogâmico, (as vezes) preciso e prefiro meu universo paralelo.




sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Soft Machismo

Machista não é só o cara que estupra e espanca, não é só o cara que te chama de vagabunda por sua liberdade sexual, machista também é aquele cara que insiste em não te respeitar em seu ambiente de trabalho mesmo com evidências óbvias de que você não está interessada nas investidas.

Denominei essa patifaria que vem acontecendo comigo de "Soft Machismo", onde tive que além de ver tentativas ridículas de demonstração de virilidade, ouvir frases como: “Você parece tão triste.” “Por que você está com essa carinha? Pode falar quem fez isso com você que eu resolvo.” Ou então “Você fica aqui sozinha nessa rua perigosa?” Oi? 18:00hrs da tarde é você acha perigoso eu esperar uma amiga pra ir na faculdade numa avenida movimentada? Violência e perigo eu sei que tem, e tem em todo lugar, mas sinceramente, nem a policia faz seu papel de proteção direito, o que sua companhia poderia me acrescentar? Companhia indesejada, diga-se de passagem. Acho que você quer que eu fale que sou frágil e preciso que você me proteja, acho que você quer me inferiorizar, acho que você acha que eu sou uma desesperada a procura de um príncipe encantado, eu não sou.

Não vejo problema uma pessoa se interessar por outra e tentar uma aproximação, na verdade sou extremamente a favor da paquera de uma maneira saudável, mas a partir do momento em que há uma infinita insistência sem respaldo, não consigo enxergar nada além do que falta de respeito, onde sou colocada em uma situação de extremo incomodo e constrangimento. Não quero parecer intolerante, não quero ter que ser a pessoa mais mal educada do mundo. Você é muito chato cara! 


Hoje eu decidi que não vou me importar de como vou ser vista pelos olhos alheios, vou dar meu recado, já que feições de explicito desagrado não são o suficiente para que eu não seja coagida vou me fazer ser ouvida, vou dizer o que penso no primeiro momento em que me sentir desrespeitada, e então você vai ver que o que precisa de salvação é essa sua falta de noção regada a pensamentos machistas mesmo que de forma não agressiva, porque eu estou me sentindo sim muito agredida.