Abra
os olhos! Ana, você está atrasada, corre!
Moro
em um enorme prédio de paredes cinza, na esquina, no centro da cidade obscura,
como um cenário de Apocalipse zumbi, de vivos. Desço e esbarro em sombras, em
gente que já foi pintada com cor-de-alma.
Chego
à repartição municipal, seu piso de granito batido está alagado, aqui entram os
que buscam solução no seio da máquina de criação de problemas.
Estou
preparada e muito confiante para isso, e para tudo.
Uma
moça que não posso definir suas características embaça meus olhos com sua
postura ereta e séria, já podemos começar.
“Quais
são suas habilidades? Vocês foram indicadas com ótimas referências.”
Não
me sinto lisonjeada, nada relacionado com repartições, prédios de esquina no
centro e boas indicações me soam lisonjeiro.
Abro
minha boca para repetir roboticamente as coisas importantes que sei, como quem
foi enxertada com aço e agora é peça de engrenagem que será acoplada a sua nave
mãe. Essa sou eu sendo responsável no seu mundo.
Seja
normal e pareça preocupada com dinheiro.
Sinto
aquele gosto, o de sempre que eu adoro. Não posso mais falar, estou muito
ocupada bebendo e afogando no meu próprio sangue, que bem ali na frente de todo
esse indevido contexto, jorra da minha boca em torrentes. Isso me excita de tal
forma, que desejo beber o sangue do mundo inteiro e depois vomita-lo de volta
para adubar a terra, e ver se assim nasce uma planta
que lembre que possuímos órgãos frágeis, que mostre que todos nós somos humanos.